É preciso falar sobre a morte
Osvaldo, 81 anos de idade, morava em um lar de idosos. Sua família depois de deixá-lo na instituição, nunca mais foi visitá-lo. O caso dele foi encaminhado para mim depois de muitas ressalvas da equipe profissional do asilo. Enfermeiras e cuidadoras informaram-me que, Osvaldo, já havia sido atendido por vários psicólogos, mas nunca houve nenhum êxito no seu processo psicoterapêutico.
Segundo elas, a maior luta da instituição com o idoso era a tentativa de tirá-lo de dentro do seu quarto, mas ele não aceitava. Osvaldo, era cadeirante, tinha poucos movimentos das pernas, porém era totalmente lúcido e de boa saúde. Estava internalizado no lar de idosos há 15 anos, e durante todo esse período se recusou a sair de dentro do quarto em que ele passava seus dias deitado ou sentado na sua cadeira de rodas. Ele era um senhor mal-humorado, de poucas palavras e extremamente pessimista em relação à vida.
O primeiro contato que tive com ele foi muito desafiador, pois o idoso conversava comigo deitado em sua cama e olhando para a parede. Sentei-me em uma cadeira ao lado de sua cama e ali comecei a fazer as perguntas básicas de um atendimento psicológico: de onde ele era, com o que trabalhava, se tinha esposa, filhos… Ele respondia, porém sem esboçar nenhuma emoção. No final de cada frase que ele dizia, seu discurso era sempre o mesmo: “eu quero morrer…”
As enfermeiras já tinham alertado-me que, todo profissional que ia até ele ouvia a mesma história: ele só falava do seu desejo de morte. Foi quando questionei a elas quanto a conduta dos profissionais diante dessa fala dele. De acordo com as cuidadoras, todas as pessoas próximas sempre tentavam fazer com que, Osvaldo, valorizasse e desse sentido a sua própria vida, mas ele sempre foi irredutível e fingia não ouvir ninguém.
Fui até ele algumas vezes, tentava puxar assuntos, mas e assim como os demais profissionais, não obtive nenhum resultado diferente. Osvaldo, ouvia-me, porém era como se eu nem estivesse ali diante dele. Foi quando resolvi adotar uma estratégia de intervenção diferente com ele. Resolvi deixá-lo falar dessa morte que ele tanto desejava, mas que ninguém permitia que ele expressasse de forma clara.
Cheguei até o quarto em que ele estava deitado, comecei a conversar e como sempre ele estava olhando para a parede ignorando minha presença.
Quando começamos a conversar mais uma vez ele disse: “eu só quero morrer…” (era tudo que eu esperava ouvir aquele dia, pois eu queria usar a estratégia que havia pensado) então naquele momento, de forma serena e tranquila eu disse para ele:
-Osvaldo, já que você fala tanto do seu desejo de morte, conta pra mim como seria se você realmente morresse hoje?
Esse homem que nunca olhava para mim, virou a cabeça em minha direção, de forma assustada, fitou os seus olhos nos meus e falou com uma voz de alívio:
-O que foi mesmo que você disse?
-Eu gostaria de conversar com você sobre a sua morte. Como você pensa que vai ser? Existe vida após a morte? Sua família vai ao seu velório? Os sofrimentos acabam com a morte?
Naquele momento, Osvaldo, deu um forte suspiro junto com uma risada de quem nunca tinha falado sobre aquilo anteriormente. E a partir daquele dia nossos encontros nunca mais foram os mesmos. Sempre que eu chegava até ele o sorriso já fazia parte das nossas conversas. Osvaldo, começou a contar-me os descontentamentos e mágoas que carregava em relação à família, e principalmente aos filhos. No meu dessa história descobri que ele era músico, gostava de tocar violão. Com o passar dos atendimentos conseguimos um grande avanço: tirar, Osvaldo, de dentro do seu quarto. Aquele dia foi praticamente um evento dentro do lar de idosos. No momento que saí pelos corredores empurrando aquela cadeira de rodas, as pessoas estavam incrédulas na imagem que elas estavam avistando. Para ele foi muito importante esse movimento. Ao sair do quarto ele pôde perceber o quanto ele se privou ao longo de anos da oportunidade de se socializar com os demais internos e poder se distrair com as atividades oferecidas na instituição. Muitos quando viram ele passeando na sua cadeira de rodas não acreditavam que ele ainda estava vivo, uma vez que fazia anos que ninguém mais viu o paradeiro dele dentro do asilo.
Desde aquele dia é como se, Osvaldo, tivesse nascido de novo. Começou a fazer as refeições no refeitório junto com os demais, tomava sol no pátio pela manhã, e aos domingos assistia missa na capelinha da instituição. Ele reencontrou o sentido de viver. Anteriormente ele estava apenas sobrevivendo. E esse é o papel da psicoterapia, fazer com que o cliente consiga enxergar a vida por uma nova perspectiva, encontrando possibilidades assertivas de enfrentar os seus problemas.
Osvaldo, é um caso que nos confirma que não existe idade certa para poder desconstruir crenças limitantes e tomar novos rumos e posturas. Enquanto houver vida e “desejo de mudança” sempre será possível recomeçar e ser surpreendido com o processo.




